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Você já afirmou detestar entrevistas. Fale sobre sua relação com a mídia e o jornalismo cultural atual.
Sempre consigo pouca verba para o lançamento dos meus filmes. Então, tem que ser criativo e contar com apoios e relações pessoais para se obter algum espaço. Quando essa pouca grana é controlada de uma forma criativa, alguma coisa ainda acontece. Nos meus filmes em que essa verba foi dirigida pelo Estado, instaurou-se o caos, não pelo apoio ou não da mídia, mas sim por incompetência básica dos próprios funcionários públicos. Tipo: convites para pré-estreia que chegam após a data, trailers caros, mal mixados e não distribuídos etc... Eu acho que um bom começo de análise do papel da mídia impressa pode ser iniciada usando uma régua para medir o espaço dado todo dia para o cinema nacional e para o cinema estrangeiro.
Um dos problemas da crítica é a busca por polêmica a qualquer preço, transferindo ao criador posturas ou atitudes de seus personagens. Acredita que essa é uma das razões para tanto folclore em torno de Sergio Bianchi?
Acredito que sim. Como se a minha observação da realidade brasileira fosse um endosso à existência das mazelas retratadas. Ou que, por falta de final dos filmes com redenção – um final limpador de más-consciências –, fosse uma afronta. Também existem alguns críticos muito ressentidos que não separam a minha pessoa, com meu mau humor latente, dos meus filmes.
Entre os adjetivos mais comuns atribuídos a você, encontram-se clichês como cínico, provocador, polêmico e pessimista.
São clichês. Que as pessoas achem o que quiserem.
Com cinco longas-metragens no currículo, você sempre encontrou dificuldades para realizar seus projetos. Por que ainda é tão difícil realizar um cinema autoral e pessoal no Brasil?
Acredito que por causa da esquizofrenia existente nos poderes da época em criar uma indústria do cinema nacional. Acreditam que o inimigo maior é o cinema independente que concorre às verbas incentivadas existentes. Acreditaram nos últimos anos em criar uma indústria “virtual” do cinema brasileiro. Criou-se de tudo: escolas, departamentos controladores, agências, debates e seminários, enormes quantidades de festivais, film commissions, associações, desregionalizações de produções etc... Só não temos o espaço – sempre com 85% a 95 % dominados pelo cinema estrangeiro e falta de salas de cinema. O que cria uma série de contravenções, superfaturamentos etc... Que pretendem ser sanadas pelo Estado contratando mais funcionários, criando mais regulamentações, que criam mais firmas privadas em formatações de projetos e assim vai-se indo.
Ao mesmo tempo em que blockbusters americanos como 2012 e Lua Nova dominam o circuito exibidor, filmes elogiados no Brasil e no exterior como Se Nada Mais Der Certo (de José Eduardo Belmonte) e Hotel Atlântico (de Suzana Amaral) ficam apenas algumas semanas em cartaz. Como é manter a integridade artística em meio a tantos estereótipos sociais e valores impostos pelo próprio mercado?
É preciso, dentro do processo esquizofrênico, que esses filmes tenham bastante lucro. Para que a porcentagem que será deduzida do imposto de renda e será aplicada no cinema brasileiro (artigo 3) seja polpuda. Ou será que também acham que o povo brasileiro não gosta de filmes sensíveis?
Você questionou o papel de algumas das ONGs do país em Quanto Vale ou é Por Quilo?, chamando-as de “o novo mercado”. Já teve de enfrentar censura de algum órgão político ou pressão de grupos privados?
Censura, só no meu primeiro longa [Maldita Coincidência, de 1979]. E pressão sistemática, na desqualificação da minha pessoa e pelo excesso de burocracia sem sentido.
Seus filmes são críticos à chamada subserviência e comodismo do povo brasileiro em geral, forçando o público a sair de seu estado de inércia e a questionar a própria realidade. Qual sua opinião sobre a ênfase do governo Lula em políticas assistenciais como o programa Bolsa-Família?
Não sou bobo de falar mal do Lula. A indústria de bolachas com gordura trans agradece
Em entrevistas para divulgação de Quanto Vale, você comentou que estava há quatro anos sem ir ao cinema. Conseguiu retomar o prazer de ver filmes? Não consegui ainda retomar o prazer.
Em outubro de 2009, você recebeu – ao lado de Beatriz Bracher – o prêmio de melhor roteiro no Festival do Rio por Os Inquilinos. O que podemos esperar de seu último trabalho, considerado pela crítica seu filme mais “brando” e contido?
Foi pela própria proposta um roteiro que não admitia distúrbios e inserções de linguagem. Queríamos contar uma história simples, quase um conto/crônica, onde houvesse um retrato de uma família da periferia que só quer viver o seu cotidiano com alegrias familiares, etc... e como a violência do exterior (representada pelos três jovens vizinhos) sufoca e começa a destruir essas relações. Os assuntos que são considerados "radicais" continuam, apenas resolvi apresentá-los de uma forma mais tradicional em termos de cinema...
Qual a sensação ao ver todos os seus filmes (incluindo os curtas do início da carreira e o seminal documentário Mato Eles?) finalmente disponíveis em DVD para o grande público, incluindo novas gerações de espectadores? Não ficar com a sensação de que 40 anos de trabalho foram inúteis. |
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