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Sergio Bianchi

Cronicamente Questionador

Prestes a lançar seu novo filme nos cinemas brasileiros – Os Inquilinos, com previsão de estreia em 26 de fevereiro, Sergio Bianchi concedeu entrevista exclusiva à 2001 Vídeo.

 

A Causa Secreta

Premiado filme de Sergio Bianchi baseado livremente no conto homônimo de Machado de Assis.

 

Cronicamente Inviável

Tendo como pano de fundo trechos de vida de seis personagens, o filme mostra a árdua tarefa de sobreviver física e mentalmente...

 

Maldita Coincidência

O filme de estréia do cineasta Sergio Bianchi e um dos pontos altos da cinematografia brasileira na década de 70.

 

Romance (1988)

Morte inesperada de Antônio César, um intelectual de esquerda, que escrevia um livro no qual denunciava um escândalo internacional...

 

Filmes de Sergio Bianchi

Caixa em embalagem de luxo com 5 DVDs contendo a filmografia completa de Sergio Bianchi.

 
 

 

Você já afirmou detestar entrevistas. Fale sobre sua relação com a mídia e o jornalismo cultural atual.
Sempre consigo pouca verba para o lançamento dos meus filmes. Então, tem que ser criativo e contar com apoios e relações pessoais para se obter algum espaço. Quando essa pouca grana é controlada de uma forma criativa, alguma coisa ainda acontece. Nos meus filmes em que essa verba foi dirigida pelo Estado, instaurou-se o caos, não pelo apoio ou não da mídia, mas sim por incompetência básica dos próprios funcionários públicos. Tipo: convites para pré-estreia que chegam após a data, trailers caros, mal mixados e não distribuídos etc... Eu acho que um bom começo de análise do papel da mídia impressa pode ser iniciada usando uma régua para medir o espaço dado todo dia para o cinema nacional e para o cinema estrangeiro.

Um dos problemas da crítica é a busca por polêmica a qualquer preço, transferindo ao criador posturas ou atitudes de seus personagens. Acredita que essa é uma das razões para tanto folclore em torno de Sergio Bianchi?
Acredito que sim. Como se a minha observação da realidade brasileira fosse um endosso à existência das mazelas retratadas. Ou que, por falta de final dos filmes com redenção – um final limpador de más-consciências –, fosse uma afronta. Também existem alguns críticos muito ressentidos que não separam a minha pessoa, com meu mau humor latente, dos meus filmes.

Entre os adjetivos mais comuns atribuídos a você, encontram-se clichês como cínico, provocador, polêmico e pessimista.
São clichês. Que as pessoas achem o que quiserem.

Com cinco longas-metragens no currículo, você sempre encontrou dificuldades para realizar seus projetos. Por que ainda é tão difícil realizar um cinema autoral e pessoal no Brasil?
Acredito que por causa da esquizofrenia existente nos poderes da época em criar uma indústria do cinema nacional. Acreditam que o inimigo maior é o cinema independente que concorre às verbas incentivadas existentes. Acreditaram nos últimos anos em criar uma indústria “virtual” do cinema brasileiro. Criou-se de tudo: escolas, departamentos controladores, agências, debates e seminários, enormes quantidades de festivais, film commissions, associações, desregionalizações de produções etc... Só não temos o espaço – sempre com 85% a 95 % dominados pelo cinema estrangeiro e falta de salas de cinema. O que cria uma série de contravenções, superfaturamentos etc... Que pretendem ser sanadas pelo Estado contratando mais funcionários, criando mais regulamentações, que criam mais firmas privadas em formatações de projetos e assim vai-se indo. 

Ao mesmo tempo em que blockbusters americanos como 2012 e Lua Nova dominam o circuito exibidor, filmes elogiados no Brasil e no exterior como Se Nada Mais Der Certo (de José Eduardo Belmonte) e Hotel Atlântico (de Suzana Amaral) ficam apenas algumas semanas em cartaz. Como é manter a integridade artística em meio a tantos estereótipos sociais e valores impostos pelo próprio mercado?
É preciso, dentro do processo esquizofrênico, que esses filmes tenham bastante lucro. Para que a porcentagem que será deduzida do imposto de renda e será aplicada no cinema brasileiro (artigo 3) seja polpuda. Ou será que também acham que o povo brasileiro não gosta de filmes sensíveis?

Você questionou o papel de algumas das ONGs do país em Quanto Vale ou é Por Quilo?, chamando-as de “o novo mercado”. Já teve de enfrentar censura de algum órgão político ou pressão de grupos privados?
Censura, só no meu primeiro longa [Maldita Coincidência, de 1979]. E pressão sistemática, na desqualificação da minha pessoa e pelo excesso de burocracia sem sentido.
  
Seus filmes são críticos à chamada subserviência e comodismo do povo brasileiro em geral, forçando o público a sair de seu estado de inércia e a questionar a própria realidade. Qual sua opinião sobre a ênfase do governo Lula em políticas assistenciais como o programa Bolsa-Família?
Não sou bobo de falar mal do Lula. A indústria de bolachas com gordura trans agradece

Em entrevistas para divulgação de Quanto Vale, você comentou que estava há quatro anos sem ir ao cinema. Conseguiu retomar o prazer de ver filmes?
Não consegui ainda retomar o prazer.

Em outubro de 2009, você recebeu – ao lado de Beatriz Bracher – o prêmio de melhor roteiro no Festival do Rio por Os Inquilinos. O que podemos esperar de seu último trabalho, considerado pela crítica seu filme mais “brando” e contido?
Foi pela própria proposta um roteiro que não admitia distúrbios e inserções de linguagem. Queríamos contar uma história simples, quase um conto/crônica, onde houvesse um retrato de uma família da periferia que só quer viver o seu cotidiano com alegrias familiares, etc... e como a violência do exterior (representada pelos três jovens vizinhos) sufoca e começa a destruir essas relações. Os assuntos que são considerados "radicais" continuam, apenas resolvi apresentá-los de uma forma mais tradicional em termos de cinema...

Qual a sensação ao ver todos os seus filmes (incluindo os curtas do início da carreira e o seminal documentário Mato Eles?) finalmente disponíveis em DVD para o grande público, incluindo novas gerações de espectadores?
Não ficar com a sensação de que 40 anos de trabalho foram inúteis.

 

 
 





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